Daniel Campos

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Encontrados 150 textos. Exibindo página 1 de 15.

N'água

Os sonhos de Antonio deram n`água. O casamento de Tereza se perdeu na água. As economias de seu João afundaram n`água. A boneca de Rafaela foi brincar em outras águas. O orgulho de César caiu por água. O bolo de laranja de dona Carmela foi engolido pela água. A canção de seu Oscar desafinou n`água. O vestido de Laura foi levado pela água. A pinga de Atílio virou água. As lágrimas de Mariazinha salgaram a água.

Os latidos de Valente se calaram n`água. Os chinelos de Abigail correram pela água. O desespero de Nelson se misturou n`água. O medo de Clarice cresceu n`água. As histórias de seu Pedro desfolharam n`água. Os peixinhos de Aninha nadaram em outras águas. Os sapatos de Antenor sapatearam n`água. O televisor de Olga só exibiu água. O caldo do feijão ficou só água. O jardim ficou abaixo d`água. O flerte de Leonor acabou em m`água....
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12/03/2016 - Na biblioteca

Interior de biblioteca. Pessoas leem em mesas apilhadas de livros e outras caminham com exemplares nas mãos. Uns vasculham estantes e outros, páginas. A bibliotecária traz olhares de um final nada feliz. Em uma das mesas, Lia está lendo ao lado de Luiz, que por sua vez tem a sua frente vários livros abertos. Ele rabisca em um bloco olhando para ela com olhos intensos, tão intensos que a incomodam. Lia muda de mesa. Luiz, sem qualquer cerimônia, segue a moça ficando ao lado dela. E, no novo posto, continua lançando olhares indiscretos para o rosto e para a parte do corpo da moça que escapa aos seus olhos. Lia murmura pedindo para ele parar. Luiz sussurra que é impossível, pois ela não o deixa parar. ...
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07/04/2016 - Na casa do duque

Era um batuque. Era uma sinfonia. Era uma bagunça noite e dia. Na casa do duque era bem isso o que se fazia. Era Tião criando confusão. Era Ana caindo na cama. Era Clara catando feijão. Era Zequinha no acordeão. E Mariazinha no reco-reco. Bárbara ficava de xaveco com o coronel. E Beto botava a cuíca para gemer. Beatriz jurava que era feliz e queria porque queria fazer ali mesmo no sofá a sua lua de mel. Bia era gata e malicia. Era caso de polícia. Era um espaço de desejo, de antirealidade e de muito festejo. Tinha amor de toda idade. E, ali, beijo não tinha data de validade. O amor era tratado como samba, como muamba, como banda. E por mais que tudo fosse incerto, tudo dava certo, tudo era completo. Na casa do duque, muque não tinha vez. Ali a língua era o ovo de indez. A língua falada, a língua tocada, a língua trocada. Era uma quizomba, cada festa de arromba. Marinho queria Guiomar, que se enrabichava pros lados do Gaspar, que quando botava sua camisa cor-de-vinho falava aos ouvidos de Lia, que não sabia como disfarçar o seu amor por Guiomar, que deixava Marinho pelo caminho em nome desse amor desenfreado por Gaspar, que não se fazia de rogado e cego caía nos decotes de Lia, que tudo via e nada podia. Era um quiproquó que dava enredo, mas que muitas vezes morria ali em segredo. Era um batuque. Era uma sinfonia. Era uma bagunça noite e dia. Na casa do duque era bem isso o que se fazia.


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31/03/2016 - Na devida medida

Abro um sorriso e tenho exatamente o que eu preciso. Não adianta sonhar e deitar a esperar o sonho chegar. É preciso levantar e caminhar rumo ao que se quer. Coloca juízo na sua cabeça. Nem nada cai do céu, nem nada rompe da terra se não houver trabalho. A estrada certa não é o atalho. O que seria do alho se não fosse a cebola, mas essa, como toda, mistura precisa se dar na exata medida. Por isso, para não ter enguiço, eu repito que toda receita, toda junção, todo feitiço precisa ser feito em suas devidas proporções. Cada encontro tem sua parcela de doação. Cada estrada precisa de duas mãos. Cada coração precisa de outro para se sentir completo. Nada seria certo se um dia já não tivesse sido errado. Não existiria o perto se não fosse o distante. Então, preste atenção no que está para além de um simples encontro com a certeza de que nada neste mundo está definitivamente pronto.


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16/07/2014 - Na hora do adeus

Quando eu morrer, conservem meus textos. Esqueçam-se da carne, dos ossos, das minhas feições, atentem-se somente para a minha obra poética. Não guardem fotografias, guardem em seus porta-retratos meus versos. Pois nada me identifica mais do que minha poesia. Esqueçam-se do meu rosto, tenham-me apenas como palavras. Um conjunto de palavras de amor. Sim, porque mais do que homem, mais do que jornalista, mais do que filho, fui amor. E só a minha obra é capaz de retratar com fidelidade o que fui. Portanto, se alguém quiser lembrar-se de mim, chorar ou suspirar pelo que fui, que seja por meio do que deixei escrito. O meu legado é o meu texto. Mais do que as linhas das minhas mãos, o que me traduz são as linhas da minha escrita. É meu coração que está impresso nesses títulos. É tudo o que eu fui e o que eu quis ser que está aqui nesses poemas e prosas. Não há um livro que conte a minha história, mas há romances que falam tudo de mim. Porque eu vivi para amar. Nasci, cresci e morri amando demais. Tive a sina de ser um apaixonado para além de seu tempo. E todas as dores e delícias dessa missão que talvez tenha menos dias do que fora previsto estão contidas em textos. Meus sentimentos serão imortais graças a essas palavras. Com toda licença poética que me cabe, amei em palavras. Não chorem sobre meu corpo, mas sobre minha poesia. Ela sim merece todos os méritos e todo o amor que queiram ainda me doar pós-morte. Não velem meu corpo, ateiem logo fogo em mim numa cremação às escondidas ou joguem pás de terra vermelha sobre minha carcaça num sepultamento rápido, mas dediquem o tempo que queiram estar comigo lendo o que deixei. Eu vou permanecer vivo em cada sílaba. E você vai me sentir – e vai sentir todo o meu sonho e todo o meu sofrimento – mergulhando em minhas palavras. Eu tenho poesia correndo em minhas artérias, irrigando meus tecidos, explodindo em meus neurônios como combustível de paixão. Tenho poesia saindo pelas minhas mãos. Tenho poesia perfumando a minha pele. Tenho poesia suando em minhas horas de aflição ou de prazer. Tenho poesia na minha língua, no céu da minha boca, nos meus lábios. Tenho poesia colorindo meus olhos. Eu sou poesia beijando as mãos de uma mulher ou indo pra cama com ela. Eu sou poesia que traz conforto e entendimento para o que não se explica. Eu sou poesia que faísca. Eu sou poesia que troveja. Eu sou poesia que respira. Eu sou poesia que dói, que cala, que suplica. Eu sou poesia sem vergonha de ficar de joelhos para se humilhar pelo amor que acredito. Eu sou poesia em todas as horas, de todas as formas, com uma verdade e uma intensidade que morte alguma irá roubar de mim. Portanto, se quiserem saber quem eu fui leiam-me. Nas horas de saudade, leiam-me. Nas horas de revolta, leiam-me. Nas horas que quiserem me pedir desculpa, leiam-me. Nas horas que minha lembrança for se perdendo ou ficando mais nítida, leiam-me. Eu vou, mas meus textos ficam. Não quero orações, velas, flores, quero apenas que me leiam. Leiam-me e assim tornem-me vivo outra vez. Não questionem se foi morte natural, encomendada ou suicídio, apenas leiam-me. Não tenham remorsos ou arrependimentos pelo que fizeram ou deixaram de fazer, apenas leiam-me. Não se lembrem da forma como morri, mas da maneira como vivi: e vivi completamente, intensamente e desesperadamente apaixonado, amando poeticamente como provam todas as poesias que são o testamento desse amor puro e infinito.


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14/04/2015 - Na hora do medo

Na hora do medo, seja tarde seja cedo, é você que eu chamo. Chamo pra perto de mim. E ainda digo “amo” implorando para não me deixar, tampouco me fazer só. Preciso grudar em seu corpo para a correnteza da solidão não me carregar. Necessito de agarrar em suas pernas para o vento da tristeza de ser só, tão só, não me arrastar. Sem sua boca eu não me encaixo. Sem você sou oco por dentro, sou louco por fora e não me aguento. Sem seus olhos sou cego, perdido, doído, vencido pela cegueira como fagulha que escapa da fogueira para morrer na escuridão. Necessito urgentemente de segurar em seus cabelos para o redemoinho do eu-sozinho não me levar a rodar pela falta de caminho. Na hora do medo é você que eu chamo em segredo pro meu enredo. ...
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01/11/2009 - Na marca do pênalti

Faltam 60 dias para acabar o ano. Das promessas todas que você fez ou se fez no dia primeiro de janeiro quantas conseguiu cumprir e quantas fingiu esquecer? Hoje é o 305º dia do ano. E quantos sonhos previstos para esse ano ainda lhe habitam, quantos projetos ainda estão de pé? Faltam 60 dias para acabar o ano e a aflição já começa a lhe perturbar. Você conseguiu fazer tudo o que pretendia no campo profissional, pessoal e amoroso? Você disse “eu te amo” para quem e da forma que queria? Você conseguiu chacoalhar sua vida, mudar aquele caminho que tanto lhe incomodava? Você conseguiu mudar e se mudar? ...
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30/08/2015 - Na outra pele

E se você tivesse nascido elefante com todo mundo de olho no seu marfim? E se você tivesse nascido leão vivendo para ser caçado por prazer? E se você tivesse nascido baleia ganhando arpões para virar óleo? E se você tivesse nascido arrara fugindo o tempo todo para não perder as penas? E se você tivesse nascido foca defendendo a própria pele sem defesa? E se você tivesse nascido árvore sendo cortada e queimada sem poder fazer nada?


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29/05/2015 - Na sua cama

Quando eu tive medo corri para debaixo das suas asas de mulher-pássaro meio águia meio colibri. Porém, você tinha voado e eu não vi. Escondi-me na sua cama, por entre suas cobertas ainda cheirando ao seu corpo de sândalo e patchouli como se ninguém fosse jamais me encontrar naquelas nuvens de perfume, contornos e lã. Não havia qualquer motivo para desconfiar de quem quer que chegasse, pois quem ousasse entrar saberia que do seu amor não poderia mais provar. Eu continuei seguro mesmo no escuro de tantos acontecimentos. E então eu ouvi do vento, de um pedaço de vento que entrou pela veneziana, que você mesmo longe estava feliz de me saber na sua cama. E eu me enterrei em seus lençóis como se cavasse fundo e mais fundo nas molas de suas costelas. E eu rasguei os travesseiros em busca das preocupações ou divagações que escorriam dos seus ouvidos. E eu ouvi sem querer e sem poder cada um dos seus últimos gemidos. E foi instantâneo ter ciúme e prazer numa rima barata de amor e dor. Eu que havia fechado as cortinas para não ser visto fui quisto por cada uma das suas meninas. Cada dia que avança deixa uma menina para trás. E tanto tempo faz que nossos dias se cruzaram num sol lilás. E agora o mesmo tempo que nos aproximava, que nos ligava, que nos versava, abocanha-nos de forma voraz como se de toda ferocidade fosse capaz. Por isso, antes de ser totalmente tomado, devorado, amaldiçoado pelo tempo, corro para sua cama sem querer me perder ou morrer sem ter vivido o que me ama. ...
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29/07/2010 - Nada além de estrada

Eu não sou nada, nunca fui nada e jamais serei nada. Sou apenas estrada. Todos me pisam e passam por mim. Usam-me para ir daqui pra lá, de lá pra cá, de cá para acolá. Eu não tenho começo nem fim. Sou sempre um meio de seguir em frente ou voltar à trás. Sou apenas um dos tantos pedaços de mim. Nada mais.

Ora sou de piche, ora de pedra, ora de terra batida. Sou chegada e partida. Sou aclive e declive. Sou de tantas viagens, paisagens, miragens. O sol nasce e morre em meus flancos. Pessoas amam e são amadas, matam e morrem, levantam e caem ao longo da minha rota. Muitos sentem prazer quando me vêem, outros enlouquecem....
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