Daniel Campos

Ou exibir apenas títulos iniciados por:

A  B  C  D  E  F  G  H  I  J  K  L  M  N  O  P  Q  R  S  T  U  V  W  X  Y  Z  todos

Ordernar por: mais novos   título

Encontrados 207 textos. Exibindo página 1 de 21.

11/03/2011 - Da janela

Da janela eu vejo a favela e seus barracos multicoloridos se abraçando, se misturando, se acasalando no clarão do sol na escuridão da lua que anda torta no céu feito anzol. Da janela eu ouço polícia e bandido trocando tiros, um menino empinando pipa com cerol, uma mulher gritando, uma criança chorando e um violino conversando em si bemol. Da janela eu torço por aquela cesta de basquetebol no fim do jogo e pelo final feliz da fotonovela com olhos entre a insônia e o rupinol.

Da janela eu a vejo, ela, a jogadora de handebol, toda bela, enrolada no lençol, iluminada por uma arandela. Da janela eu sinto seu hálito de mentol com canela se perdendo entre as nuvens de um anjo sentinela. Da janela eu ouço o ar, cântico de rouxinol, se movimentado debaixo de suas costelas. Da janela eu grito: cuidado com o farol, com o colesterol, com a esparrela. Da janela eu a tenho como uma tela de aquarela retratando o mergulho do girassol no atol. ...
continuar a ler


Comentários Comentários (1)

Da porteira

Debruçar sobre uma porteira fechada é perder os olhos lá onde o céu se deita na terra. Lá onde o horizonte não tem uma linha definida. Lá onde tudo se encontra, se mistura, se faz impossível. A porteira fechada parece trancar histórias, lembranças, um ontem que sente saudade de si próprio. A sensação de admirar a paisagem vista da porteira é a de estar diante de um porta-retrato sem molduras.

As mangueiras com as promessas de suas mangas vermelhas; o verde que se espalha em manchas de abacate; a ameixeira que espera suas flores se tornarem veludos amarelos; o chuchu parece suspenso no ar por uma linha imaginária; as flores de São João vestem o arame farpado derramando-se sobre os mourões... ...
continuar a ler


Comentários Comentários (2)

04/12/2009 - Dá um tempo, tempo

Tenho andado em dívida com o tempo. Muitas cobranças e pouca coisa oferecida em troca. E pior, maldigo-o a todo instante. Isso sem falar que tenho sempre um pé atrás com ele, além, é claro, de tentar agarrá-lo sempre. Posso dizer que sou uma pedra no sapato do tempo. Vivo importunando-o com minha mania de quer mais e mais do que ele pode me ofertar. Pechincho demais, chego a ser chato com os ponteiros. E fazer o quê? É a vida que está em jogo.

Tento quase que diariamente flexionar o tempo, esticando o dia, empurrando a noite para debaixo do tapete. Chego a atrasar o relógio para ter a sensação de que fui agraciado com alguns minutos a mais. Pura ilusão. O tempo é arrogante e turrão, não se dispõe a conversar, tampouco fazer um acordo de cavalheiros. Para ele, sou apenas mais um. Mais um de seus escravos. Lá fora há uma multidão de pessoas acorrentadas, torturadas, condenadas ao tempo. ...
continuar a ler


Comentar Seja o primeiro a comentar

29/03/2014 - Dá-me seu amor

Dá-me seu amor pra vida inteira. Dá-me seu amor sem volta. Dá-me seu amor como nunca dantes. Dá-me seu amor levando-me contigo. Dá-me seu amor mais íntimo. Dá-me seu amor sem medo. Dá-me seu amor num casamento zodiacal. Dá-me seu amor crescente. Dá-me seu amor solene. Dá-me seu amor sem se preocupar com nada. Dá-me seu amor para sempre agora. Dá-me seu amor e aquieta em mim. Dá-me seu amor de beijo em beijo. Dá-me seu amor múltiplo nuclear. Dá-me seu amor professado. Dá-me seu amor recebendo-me (recebendo tudo o que sou) em troca. Dá-me seu amor sempre buscado. Dá-me seu amor sem hora pra acabar.


Comentários Comentários (1)

19/06/2011 - Dados

Eu já lhe dei minha vida, minha alegria. Eu já lhe dei meu sangue, minha fantasia. Eu já lhe dei minha chegada, minha partida. Eu já lhe dei meu romance, minha escrita. Eu já lhe dei minha profecia, minha ferida. Eu já lhe dei meu buquê, minha margherita. Eu já lhe dei minha derrota, minha vitória. Eu já lhe dei meu porquê, meu depoimento. Eu já lhe dei meu brilho, meu trilho. Eu já lhe dei meu refrão, minha história. Eu já lhe dei minha solidão, meu sentimento. Eu já lhe dei minha nuvem, meu vento. Eu já lhe dei minha memória, meu tempo....
continuar a ler


Comentar Seja o primeiro a comentar

10/07/2010 - Dália de carne

Adélia era uma mulher que cultivava dálias no complexo de jardins que mantinha na frente de sua casa. O único lugar em que me deparei com essas flores graúdas e coloridas foi naquele canteiro que tinha um coqueiro no centro e cacos de azulejo vermelho, azul e amarelo dispostos num mosaico ao longo do passeio. Depois da morte de Adélia nunca mais encontrei as tais dálias. É uma pena eu não ter ficado com sementes ou com algumas batatas daquela planta-mãe. Nem mesmo as pétalas eu me lembrei de guardar dentro de um livro. Assim como Adélia, as dálias desapareceram das minhas vistas. ...
continuar a ler


Comentários Comentários (1)

Dama de azul

E do teatro vazio nasce uma dama de azul. Do silêncio da espera, faz-se o desespero. Da claridade em breu, surge o azul. Um spot de luz, feito um assassino, segue aquele corpo como se seguisse sua próxima vítima. Um corpo envolvido de azul. Uma blusa azul deixava os braços expostos, insinuava a leveza do colo e até desvendava um pouco das costas daquela criatura sem nome. Os mistérios e as memórias presentes à flor da pele fresca.

Do nervosismo, encena-se o drama. Das mãos aflitas, dá-se o consolo inesperado. Uma saia azul desnuda com extrema sutileza as pernas nunca dantes vistas de tal maneira. As sombras, os traços, a geometria inspiram olhares. Da face umedecida pelo suor frio do medo, unge-se a compreensão (não que ainda não a compreendesse, mas agora ela está com os sentimentos em carne viva; sentimentos que afloram como criaturas nuas em alma frente a minha palidez de palavras). ...
continuar a ler


Comentar Seja o primeiro a comentar

Dama dos mortos

Entre túmulos e cruzes, ela caminha. Não é velório, enterro ou aniversário de óbito de algum parente, amigo, namorado. Como ontem, anteontem e trasanteontem também não o foi. Não é gótica. Não se veste de negro, mas gosta de ficar por ali, lendo a poesia fúnebre das lápides frias. Gosta de ficar perambulando e cheirando o perfume fúnebre das flores fúnebres. Em sua maioria, crisântemos brancos, roxos, amarelos. No seu suor, o cheiro de cravo de defunto escorria pelo seu corpo não menos gélido.
...
continuar a ler


Comentários Comentários (1)

12/10/2015 - Dança de almas

Vamos dançar, mas não com os corpos. Com as almas. E para isso deixa o corpo quieto. Relaxe. Sente, deite, aquiete-se. Deixe sua alma à vontade. E permita que ela saia ao encontro de outras almas. Almas que bailam, valsam, boleram, sambam, riscam o céu com suas luzes ao ritmo de amores que estão além da vida, transitando entre tempos e planos. Dance e trance seus carmas. Arma-se de leveza, de delicadeza, de nobreza de sentimentos e rodopia aos sete ventos. Não se preocupe em encontrar ninguém, os destinos se encontram por si só. Metades sempre se procuram. E quando se dá o encontro das estrelas, elas dançam. Afinal, um céu estrelado nunca é igual ao outro.


Comentários Comentários (1)

05/06/2011 - Dançando com a lua

Quando ela acordou, o sol ainda tinha os olhos fechados. Os vaga-lumes ainda brincavam ao som dos grilos apaixonados. Nas ruas não passava ninguém, nem andarilhos, nem carros, nem trem. Os galos nem pensavam em cantar. Um pé de dama da noite, perto do portão, exalava perfume de mulher. As crianças sonhavam com carrosséis e os poetas tinham pesadelos com a solidão. E ela, numa pele quente como flanela, contrariando o relógio natural e o horário oficial, seguia acordada, mas longe de ser qualquer coisa de alma penada. ...
continuar a ler


Comentários Comentários (2)

      1  2  3  4  5   Seguinte   Ultima