Daniel Campos

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Encontrados 33 textos. Exibindo página 1 de 4.

Gafanhotos

As palmas infestam o ambiente como uma epidemia de gafanhotos. As mãos se tornam asas verdes e se batem e se debatem. Não, ela não está no palco de um teatro, na frente de uma sala de aula, na apresentação de um balé. Está em sua casa, diante de um bolo com uma vela acesa.

Aquelas palmas, mais do que aplausos, eram a marcação de uma música que esbofeteava seu rosto. Os algarismos da vela indicavam vinte anos. Muitos diziam 15 e 18 como datas fundamentais, mas nenhuma data lhe doera mais do que os 20 de agora. Legalmente, era o último ano de sua dependência. Mas ela era dependente demais. Seus pais eram como se fossem suas drogas. Encontrava o êxtase nos olhos do pai e a cocaína no colo da mãe. Dependia deles para tudo....
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08/03/2011 - Gaia e suas mulheres

Todo artista tem em sua alma uma espécie de útero. Foi assim que essa fonte de energia chamada Deus deu a luz ao mundo. A humanidade chegou aonde chegou por conta do pecado original, envolvendo duas simbologias femininas: a maçã e a serpente. Temos em nossas veias o sangue de Eva. Jesus só foi Cristo graças ao milagre de Maria, Nossa Senhora, que é una e ao mesmo tempo centenas de invocações e rostos.

A civilização perdeu a cabeça com Joana D’Arc. Imperadores e escravos da paixão viraram pedra diante dos olhos de Cleópatra. Os amantes passaram a amar em francês com Edith Piaf. Os deuses do Olímpo se destruíram pela beleza de Afrodite. Quantos homens se curvaram a uma Margaret de ferro? Quantos não sonharam em dançar com Margot Fontain? Quantos corações foram revirados pelos gestos de madre Tereza de Calcutá? Quantos os órfãos da princesa Diana, de Evita Perón, de Elis Regina?...
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04/05/2011 - Galinheiro particular

Ao contrário de Gisele Bündchen, meu avô nunca ganhou os jornais por manter um galinheiro particular. Mesmo assim, a fama de seus ovos e frangos caipiras ganhou a vizinhança. Pudera, as galinhas de meu avô não eram quaisquer galinhas. Eram espécies selecionadas a dedo por ele. Galinhas vermelhas, brancas, pretas, carijós que recebiam tratamentos dignos de princesa: comida de primeira, poleiros cobertos, água de poço, ninhos confortáveis e um terreiro imenso para ciscarem. Também contavam com uma grande ameixeira para se aventurarem entre os galhos e frutos amarelados. ...
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17/11/2012 - Galo caipira

Quando o galo caipira canta aos pés da surupira até o curupira se espanta, pois tudo amanhece na mata, dos bichos às águas da cascata. Quando esse galo da cor de urucum canta, não fica nenhum olho fechado; seja os olhos do casal de namorados, seja os olhos do gato pardo, seja os olhos do furacão... tudo se abre à canção do galo despertador. Quando esse galo canto na encruzilhada da estrada o vento traz o toque do agogô, a batida de tambor.

Quando o galo caipira canta tudo quanto é silêncio nem respira, só mira a porta de saída. É o sinal para as idas e vindas, para as chegadas e partidas, para os encontros e despedidas. Quando o galo caipira canta o dia chega a ficar tonto, cambaleando entre os contos da melodia. Quando o galo caipira canta tudo se agiganta, tudo se arrepia. Quando o galo se pronuncia é chegada à primavera da fantasia.


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24/05/2015 - Galo do dia

Ainda com os véus escuros da noite tomando conta dos sete céus, o galo que brilha avermelhado, ainda com os olhos de sono, suja seus pés na terra orvalhada em busca do melhor lugar para cantar. É como o artista a procura do palco perfeito. O seu público ainda dorme. As galinhas estão quietas no poleiro. As chocas estão acomodadas nos ninhos. As que já picaram estão cobrindo os pintinhos. O lavrador aproveita cada segundo de sono para se recuperar da última lida e sonha com chuva para plantação vingar. A camponesa está num baile, num vestido de tantos brilhos, dançando entre estrelas... ao menos no sonho. Os meninos dormem como se nunca mais fossem acordar. O cachorro perdigueiro dorme na porta da casa como que vigia entregue ao sono. Os porcos estão mergulhados na lama em sonhos porcos. O gado dorme junto para enfrentar a friagem. O ar frio que desce branqueando árvores e telhados desencoraja os pássaros que já despertaram. Mas o galo, de porte nobre, pensa mais no seu reino do que em si próprio, escala um pé de urucum, galho a galho, e a certa altura pula pra beira da primeira telha que cobre o galinheiro e lá, cisca como que tirando faísca, estufa o feito, olha pra cima como que querendo trazer um sol que ainda não há, bate as asas, e canta para acordar o mundo. O lavrador olha pro tempo e coloca as botas. A camponesa assopra as brasas para coar o café. A filharada reclama pra sair da cama. A passarada regozija pelos ares e galhas. Os porcos rolam. A galinhada cisca. O gado pasta. O bezerro dá cabeça na ubre da mãe. E o galo vai assistindo o seu espetáculo, pois o seu papel embora de protagonista é breve: abrir as cortinas pro dia passar.


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01/04/2015 - Garapa

Depois da tradicional macarronada com aquele bife esfregado no fundo da frigideira, com direito a refrigerante de maçã e pudim de padaria feito em casa, dona Ofélia nos levava para o quintal de sua casa que mais parecia um bosque, com direito a um pouco de tudo, de pitangueiras a pessegueiros, de macieiras a pés de erva-doce, de coqueiros a salsinhas, de gengibres a jabuticabeiras, de mimos de todas as cores a hortênsias, de violetas a orquídeas, de cebolinhas a tomatinhos, de arrudas a poejos, de folhagens a ramas, achávamos feixes da mais doce cana-de-açúcar. Seu Antônio ficava só olhando, meio que fazendo sala com a família, enquanto sua mulher há mais de cinquenta anos passava a mão no facão amolado na pedra e desbastava aquela cana arroxeada. Em tempo, tiramos de um quartinho cheio de tralhas, que pertenciam à coleção de achados e perdidos de seu Antônio, um pequeno engenho pintado de verde claro. E daí começava a brincadeira para moer aquela cana extraindo a mais pura garapa, cujo cheiro atraia abelhas e beija-flores. Os copos eram distribuídos para quem se aconchegava num banco de Kombi ou num improvisado feito de saca de cimento endurecido, ou ainda em cadeiras de madeira do tempo da bisavó. A festa valia a bagunça, de modo que todos, naquela simplicidade, ficavam satisfeitos com o pouco que na verdade era muito.


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Garça que se esgarça

Na janela, espreguiça com ares de garça. Podia ter vontade de espreguiçar na cama, mas antes de consumir essa vontade, espreguiçava-se na janela. Uma varanda pequena, do 2º piso. Uma varanda minúscula. No máximo, dois metros quadrados que, na verdade, eram dois metros retangulares. Mal dava para caber seu corpo se ali deitasse. Era só para poder dizer que tinha varanda. Fez questão daquele apartamento, que nem era o melhor localizado e o com o melhor preço, mas era o que tinha a varanda perfeita para seus desejos. ...
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27/02/2011 - Gárgulas apaixonados

Eles se amam como amam os gárgulas, de dia estão tão perto e quão distantes, já a noite são amantes, voando nas asas um do outro, num amor guerreiro e solto.

Antes do fim do primeiro beijo, o coração de pedra explode de prazer em medos e desejos, em trovejos e segredos que não aguentam mais se esconder.

Pela escuridão, entre o sim e o não, os gárgulas vão se perseguindo, se seduzindo, se possuindo, como duas estátuas em movimento, duas criaturas de sangue ao vento. ...
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09/08/2015 - Garimpagem divina

A pedra da criação foi rompida pela mão de um deus garimpeiro que se atreveu a romper a vida petrificada. O garimpo da curiosidade levou à abertura da caixa que antecede Pandora. Deus só se fez deus ao abrir a caixa, antes era apenas um viajante do espaço, um solitário ser em busca de suas completudes. E o homem, em retribuição à liberdade, acabou adorando eternamente o deus que em sua garimpagem de amor criou o mundo. Deus foi preenchido pela humanidade, que, mesmo inconscientemente, procuram deus a todo instante para continuar sendo carne e não pedra. E deus segue garimpando para não perder os pedaços de gente que acabaram se misturando ao seu ser supremo.


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31/10/2009 - Gastronomia amorosa

Meu amor, ò vamos ceifar o trigo, vamos amassar o pão. Vamos assar, cozer, ferver nossos desejos em óleo bem quente. Vamos nos dividir como gomos de laranja e nos encontrar no fundo da boca. Vamos encontrar, misturar e acorrentar nossos nomes nas colheradas de uma sopa de letrinhas. Vamos cantar o nosso amor comendo guloseimas, pulando amarelinha. Vamos nos amar entre cartas de vinho e tarô. Vamos deixar a rotina insossa escorrer das grelhas e nos grelhar deitados nas telhas sob o sol ou à mercê das centelhas das estrelas. ...
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