Daniel Campos

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Encontrados 45 textos. Exibindo página 1 de 5.

I like chopin

Sob o efeito de um meteoro, as árvores ficaram de lado e nem se atreveram, por medo ou vergonha, a jogarem suas sementes na clareira. Medo de um outro terremoto. Vergonha de serem expulsas por um pedaço de pedra. Sementes de conquista. Conquista de espaço e de tempo, sementes que alastravam clones daquelas árvores e sementes que faziam com que aquelas árvores se perpetuassem a cada broto.

Durante séculos ninguém pisou ali. Aliás, ninguém ousou pisar ali. Mas ousadia era uma palavra que não faltava no dicionário daquela que era ousada por natureza. E ela, para deixar as árvores boquiabertas, deitou em sua cama de lençol egípcio e amanheceu deitada naquela relva baixa que cobria aquela clareira amaldiçoada. Quando o sol deu vista aos olhos das árvores, elas não acreditaram. Tem alguém na clareira. Tem alguém na clareira. Tem alguém na clareira. Era essa a frase que ecoava pelas galhas das árvores como se fosse e voltasse pelo fio daquele telefone feito com duas latinhas. Telefone que se brinca quando criança. Mas ali parecia não haver nenhuma criança. E nem havia passado, o tempo era presente....
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06/12/2012 - Iansã me chamou, eu vou...

Iansã me chamou, e quando Iansã me chama eu vou. Eu vou, eu vou, com Iansã por todos os caminhos eu vou. Eu vou pelo vermelho de Iansã. Eu vou entre o balanço de Iansã. Eu vou numa batida de Iansã, batendo cabeça pra orixá que me traz o fogo do sol toda manhã. Espera que eu vou, espera que vou, eu vou com Iansã eu vou. Eu vou rodando na saia rodada de Iansã. Eu vou numa batucada de Iansã. Eu vou, com unhas e dentes, defendendo o amor de Iansã. Eu vou marcando ponto pra Iansã, eu vou, eu vou, pelo encanto de Iansã eu vou. ...
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24/04/2016 - Idade interior

Os jovens envelheceram. As crianças cresceram. Mas o menino que há cá dentro em mim continua aqui, a assoviar, larara lariri. Não deixe a meninice te escapulir. O sentimento é o que a gente quer fazer existir. A idade não conta quando a gente dá conta de sorrir. Não importa a matemática da certidão de nascimento, dos registros oficiais. O que importa é o agora, o que deve ser vivido, o que não volta mais. Esqueça do tempo, pois tempo não se prende, não se acumula, nem tem bula. Então, arreganha o coração e ganha o mundo, pois este segundo você não viverá mais não. E o melhor é viver tudo com a idade do perdão. A idade que permite que nos perdoemos e, acima de qualquer coisa, não nos culpemos mais não por dar à luz a imaginação.


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06/10/2012 - Identidade nas mãos

O que eu trago nas mãos diz muito mais sobre mim do que meu rosto. Quase sempre elas caminham vazias, porém fartas de linhas, e caminho e destinos. A minha alma é impregnada de profecias, de possibilidades, de adivinhações. Mãos tão calejadas quão um coração apaixonado, que trabalha sem parar em nome de um amor maior. Mãos que se dão às outras mãos como eu me dou às ilusões, de forma total.

As minhas mãos trazem papeis, pedaços de jornais, manuscritos apocalípticos, páginas sagradas e capítulos de romances. Esse sou eu – escritos, ditos e não ditos. As minhas mãos trazem uma aliança quadrada, pois o amor que sinto tem os lados paralelos dois a dois. O amor que sinto não tem uma única forma, pois todo quadrado é também um retângulo e um losango. Além do mais, os quadrados são mágicos. ...
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Identidade secreta

Em um desenho futurista, três grandes argolas de ouro se entrelaçam em cada orelha. Designer norte-americano e filosofia oriental, lado a lado. Mas isso não é o mais importante para aquela mulher que gostava de esbanjar. Fosse por meio dos acessórios de shopping center, do carro de sangue alemão ou das fotos da última viagem transatlântica, ela, propositalmente, deixa-se à mostra. Não fazia por mal, mas gostava de chamar os holofotes para si.

As mulheres a odiavam. Amigas? Uma ou duas, no máximo. Os homens? Cafajestes e românticos, modistas e socialistas, figurões e plebeus eram unânimes no amor e no ódio que nutriam por ela. Amavam-na à primeira vista e a odiavam nas demais. Vivia com roupas de academia, o que a deixava ainda mais provocante. Vivia para o seu corpo e, nas horas vagas, passeava por lentes objetivas. Era modelo fotográfica. Outdoor, capas de revistas, interface de sites... Seu rosto de menina que cresceu comendo iogurte sempre aparecia ao lado de algum produto. Era um ótimo chamariz. ...
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11/01/2015 - Ignorância

Por que me olha assim como se não visse nada? Até quando você vai me dar suas costas? Por favor, me perdoa, não me ignora, eu sei que nada é à toa, mas... Pra que tantos ais? Deixa meu barco voltar pro seu cais. Eu preciso do remanso dos seus olhos mansos. Cansei das tempestades, de viver à mercê da saudade, de vagar sem rumo pela cidade. Quantas vezes eu fui pra seu endereço. Por muitas horas eu me vi ligando pro seu telefone. Pensar que nunca mais vai ser como era antes é um inferno de Dante. Tenha certeza de que a tristeza que exala me cala. Cada vez que me ignora cava um pouco mais da minha vala. ...
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23/05/2015 - Iludicamente

Nem todo vento enverga. Nem toda chuva molha. Nem todo puxão rasga. Nem toda criatura é do criador. Nem toda morte leva. Nem todo laço prende. Nem toda dor fere. Nem todo tempo é suficiente. Nem todo amor é pra sempre. Nem toda loucura dura. Nem todo calor esquenta. Nem todo coração se abre. Nem toda flor perfuma. Nem todo abraço acalenta. Nem toda boca geme. Nem toda palavra faz sentido. Nem todo braço é asa. Nem toda vida é para valer. Nem todo passado fica. Nem toda semente brota. Nem todo broto vinga. Nem toda partida volta. Nem todo bem é bom. Nem todo mal é ruim. Nem toda mulher quer. Nem toda fé é santa. Nem toda princesa tem reino. Nem todo cachorro late. Nem todo cacau é chocolate. Nem todo vento acaba. Nem toda estrada curva. Nem todo açúcar adoça. Nem toda pimenta queima. Nem toda poesia é poema. Nem todo choro é triste. Nem toda porta fecha. Nem todo galo acorda. Nem todo ser é pra ser. Nem todo humano tem plano. Nem toda esperança se alcança. Nem todo pivete é moleque. Nem toda seita é feita. Nem toda pedra quebra. Nem todo sol nasce. Nem todo beijo estala. Nem todo corpo se encaixa. Nem todo fim é o fim.


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23/07/2015 - Iluminidade

Ilumina, ilumina, ilumina eu. Eu que não sou daqui, sou de deus. Nasci do tempo, venho do espaço. Ilumina meus passos e passa comigo. Ilumina meus braços e dá-me asas e abrigo. Ilumina meus traços e me intua por onde sigo. Se eu ando na tua eu não tenho medo do perigo. Ilumina cada esquina minha, pois a vida é encruzilhada e é preciso luz pra clarear a estrada. Ilumina, ilumina, ilumina a passarada e faça da vida a minha mulher amada. Ilumina, ilumina, ilumina pra cá que sabiá não voa na escuridão e se voar se perde na solidão. Ilumina, ilumina, ilumina, já que minha sina é a claridade. Ilumina, ilumina, ilumina me dando a iluminidade.


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Ilusão cortante

Silêncio. As palavras seguem as lágrimas que seguem as palavras num comboio sem hora para acabar. Os olhos se deitam no chão. O abraço dura uma vida. Aromas, texturas, cores passam apressados em nossas cabeças. O passado não acabou. O futuro não chegou. Ah! Tanto a dizer. E o silêncio é a melhor palavra. É proibido dizer adeus. Abraços, como uma ilha cercada pelo aceno da separação. E se houvesse música, haveria passos. Mas não havia som. E se houvesse seria bolero, tango. Diante da tristeza, melhor o silêncio. O mundo, em sinal de respeito, se calou. Não havia telefone, não havia pássaros, não havia carros, não havia crianças... ...
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29/01/2012 - Imagem e semelhança

Se deus nos fez a sua imagem e semelhança, deus nasceu pelado e talvez ande assim, nu, até hoje. Se deus nos fez a sua imagem e semelhança... Deus tem seus modismos. Deus chora. Deus envelhece. Deus peca. Deus sonha e corre atrás de seus sonhos. Deus acredita em milagres. Deus reclama, se zanga, fala palavrão. Se deus nos fez a sua imagem e semelhança... Deus tem seus erros, suas falhas. Deus não tem asas. Deus tem suas limitações. Deus é metade sim, metade não. Deus boceja. Deus chega e se despede. ...
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