Daniel Campos

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Encontrados 97 textos. Exibindo página 10 de 10.

03/05/2008 - Quero uma cama no meio do nada

Quero uma cama no meio do nada. E que esse nada tenha, ao menos, algumas palmeiras para ofuscar o sol. Que o silêncio deste nada cante o som de um riacho correndo ao fundo e, vez ou outra, de alguns grilos por ente a terra molhada. Ah! É essencial que a terra esteja recém-umedecida por uma chuva lenta. E que haja um pouco de mato florido para perfumar isso tudo. E se não for pedir demais, quero um canário e um cavalo. Esses serão meus únicos dois luxos. Enquanto o canário estrala forte, o cavalo galopa manso na imensidão. ...
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24/02/2008 - Quando eu morrer

Há quem deixe testamentos ou confesse suas últimas vontades à meia-voz. Eu, nessas linhas, escancaro o meu desejo. Quando eu morrer, não quero velórios, funerais, cemitérios. Não há nada mais sem graça do que aqueles túmulos um do lado do outro. Aquelas lápides frias, aquela terra pesada, aquele silêncio todo. Dá uma vontade de gritar, de sair correndo e mal-dizendo quem inventou tudo aquilo. Não estou blasfemando, posto que não acredito que as almas ficam por ali. Ao menos, as almas de luz. No fundo, cemitério é um depósito de corpos. É uma espécie de prova que você não existe mais. Há algo mais ridículo do que isso?...
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Quadro a quadro

Os passos demoravam a mudar. Tinham a lentidão de uma terra que demorava vinte e quatro horas para dar uma volta em torno de si. Era tempo demais para quem sempre levou a vida de forma ligeira. Naquele corpo farto de tempo, a pressa do mundo. Andou com sete meses e três semanas. Nasceu com oito meses. Foi gerada uma semana antes do casamento de seus pais, num ato escondido, no celeiro da fazenda. Falou antes de completar um ano. Foi a primeira de sua turma de amigas a beijar. Foi correndo embora de casa quando ouviu o primeiro convite de amor eterno. Escapuliu dos olhos do pai no lombo do cavalo mais veloz da fazenda. ...
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Quando em seu colo

Quando em seu colo, nada mais existe. Eu me absorvo e me sorvo de mim mesmo, quando em seu colo. Quando em seu colo, o mundo perde um pouco de seu azul e fica mais lilás - a mais feminina das cores. Quando em seu colo, ouço os gritos da fêmea que há em você. Quando em seu colo, sinto-me numa espécie de casulo, de cápsula, de semente... tenho a sensação de que vou ganhar um novo mundo a qualquer momento. Quando em seu colo, sinto o perfume de romã de sua boca rompendo todas as minhas manhas e manhãs. Quando em seu colo, a dor desaparece. Os pecados passam de sete quando em seu colo. Quando em seu colo, sou um pouco mago, feiticeiro, bruxo de mim mesmo. Quando em seu colo, acredito no amanhã. Quando em seu colo, os sabores são mais intensos. Quando em seu colo, sinto-me no meio de uma plantação de morangos. Os trens, os navios, os cavalos param por respeito ou por medo, quando em seu colo. ...
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Quatro paredes

Os batimentos cardíacos parecem mais nítidos. O silêncio, definitivamente, está encarcerado. O espaço é pequeno. As pernas, por mais que queriam, não conseguem ir além de três passos. E os passos andam e andam, em círculos, e estão sempre no mesmo lugar. Depois de gastar os pés no concreto áspero e mal acabado do chão, o corpo decide sentar-se. O cansaço é de angústia. Não há mais sapatos embebidos de cera, calças finas, camisas de mangas cumpridas... O que existe são trapos e um corpo exposto. As lembranças surgem ao meio das baratas que ficam paradas nos dos cantos que me cercam. A barata me olha com olhos de sabe-se lá o quê. Não sei se elas sentem alguma coisa ou se elas só desejam um farelo do pão que quebra no canto da boca. Queria ouvir alguma música, mas meus discos estão mudos. As palavras estão caladas. Daqui não vejo a lua em nenhuma de suas fases, apenas um tucho negro invade o ambiente. O cheiro de mofo aumenta a cada aparição dessas sombras. Nas encostas já há alguns musgos que crescem viçosos. Do meu lado, amarrado por correntes, os ossos de um romântico que dizem ter morrido de amor. Amou quem não podia. Amou como não podia. Amou quando não podia. Dentre tanta miséria, um copo de cristal ainda resta em minhas mãos. O cristal fino e frágil. O copo, que não sei se vazio ou cheio de sangue, continua debruçado sobre a poeira. Chega! Não irei mais inventar histórias para traduzir a solidão de quatro paredes a qual eu me condeno... O meu sul é uma parede de pedra. O meu norte tem tijolos. O meu leste tem rachaduras. O meu oeste tem teias de aranha. Quatro paredes de um mundo que por mais que eu tente escapar, romper, pular, derrubar... Prendem-me à ilusão da mulher amada. ...
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Quem somos?

Quem somos? Somos milhões de brasileiros a procura de uma razão de ser. Milhões de brasileiros perdido num oceano repleto de promessas e ilusões. Náufragos que nadam, nadam no vazio de um destino incerto, sem conseguir encontrar no horizonte a imagem de um porto seguro.

Milhões de brasileiros que não se encontram consigo mesmo, tampouco com os outros, convivendo com uma ausência de ideais, ou melhor, tomados por interesses indesejados numa inconsciência cotidiana, que se manifesta de forma tão natural. Onde estão nossos projetos, nossa vida, a utopia que sempre nos ajudou a sobreviver. Hoje, caminhamos com lenços e documentos, nos embriagamos nos cálices que não envolvem, contrariando chicos e caetanos num gesto que nega o que pouco temos....
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Quinta-feira

No calendário oficial, uma data qualquer. No calendário extra-oficial, também nada de relevante. Apenas mais uma quinta-feira a ser preenchida em uma página em branco na agenda. Enquanto azul, a quinta-feira, segue o caminho de tantas outras. Um azul comum, de um céu comum, com deuses comuns. Nada de nuvens, de fuligens, de cometas, de naves espaciais e de balões grenás.

De repente, ela surge avassaladora como a rainha da Mesopotâmia. Ela surge e a quinta-feira ganha seu nome e o azul escorre pelas frestas da mesmice. E do azul, faz-se à noite num escuro cintilante. Rapidamente, são chamadas as estrelas ainda dormentes. E a taça onde o sol reinava absoluto como uma rodela de laranja se enche de noite. Todos os encantos, lendas e suspenses são postos e depostos naquela taça. E ela se transforma em líquido. Um líquido que escancara e amortece e encara e aquece os lábios. Nos lábios, o cheiro da noite. Cheiro de brisa, de orvalho, de infinidade....
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