Daniel Campos

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Encontrados 372 textos. Exibindo página 3 de 38.

23/03/2015 - A chuva no bico do João

Choveu, a menina entrou debaixo da coberta. Choveu, a lavadeira se queixou. Choveu, o pintor de parede preocupou-se com sua meta. Choveu, o sino da igreja nem tocou. Choveu, o menino não foi jogar bola. Choveu, deu preguiça de ir para escola. Choveu, o jardineiro agradeceu. Choveu, a florista enlouqueceu. Choveu, o carro não saiu do lugar. Choveu, no fogão uma sopa pro jantar. Choveu, guarda-chuvas e sombrinhas se abriram como flor na primavera. Choveu, a roupa deu em lama. Choveu, não faltaram convites para cama. Choveu, tudo fica mais lento e o relógio não espera. Choveu, o pescador se animou. Choveu, a mulher reclamou que ninguém limpou o pé para entrar em casa. Choveu, passarinho sacudiu a asa. Choveu, passarada cantou pra valer. Choveu, João que é de barro ganhou o que fazer. Choveu, João colheu sua matéria-prima pelo quintal. Choveu, Joana-de-barro pode fazer seu enxoval. Choveu, João-de-barro vai construir no alto do angico. Choveu, e o João-de-barro levou a chuva no bico.


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11/06/2011 - A chuva recriadora

De repente, começa a chover na mulher da estiagem. Que os amantes cavem, remexam e revolvam a flor da pele dessa mulher para que os poetas possam semear o amor. Úmidos, os sentimentos dessa mulher tendem a brotar com força, rompendo as sete camadas de solidão. A época de sonhos secos, mirrados e agonizantes acabou. Tem início o nascimento de um tempo de fartura, espalhando uma primavera fora de época pelo horizonte que a contempla. Raios a cortam iluminando-a em lampejos à santa Bárbara, em promessas à santa Clara. ...
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26/11/2012 - A chuva vem...

Lá vem a chuva, lá vem a chuva, lá vem a chuva, a chuva vem e...

O bêbado enche o copo e toma uma dose de chuva. A moça pensa que o céu é um imenso chuveiro e sai cantando pela rua. O lavrador, de tanta felicidade, dança no ritmo da chuva. Enquanto tem gente correndo, há gente se entregando à chuva. O cachorro se chacoalha tirando de si todo o peso do mundo. Os apaixonados caminham entrelaçados sob o mesmo guarda-chuva. Há quem levante um brinde ao fim da estiagem. A cama ganha colchas e cobertas. Os peixes sobem à flor d’água. O coração de açúcar derrete. A viúva se lembra do marido chegando com a chuva e fica a esperá-lo no portão. Para não estragar os sapatos, a mulher prefere seguir descalça. ...
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22/06/2008 - A cinderela e o bêbado fulano de tal

São três horas da manhã. A cidade dorme. E pelas ruas, um bêbado fulano de tal caminha com uma sandália nas mãos à procura de sua cinderela. Ó noite fria! Ó busca bela! Como soluços compassados, os carros passam com faróis atordoando os olhos já atordoados do bêbado que tropeça sem chapéu e sem bengala por linhas que a cigana charlatã não dá conta de ler. Não, não era Chaplin ou qualquer outro personagem famoso de cinema ou teatro. Era um astro das calçadas, mas não passava de um anônimo fulano de tal com a promessa de um romance nas mãos....
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25/04/2015 - A comitiva vai partir

A noite se joga do seu alto no meio do pasto. O gado dorme orvalhado. Não há mugido nem refestelo qualquer, só o vento que caminha na ponta dos pés agasalhados por meias de lã. O boiadeiro, depois de um dia suado na lida, dorme acalentado pelos seios de sua sinhá. Sabe que a seca está por vir, que o pasto vai secar, que vai ter que tocar o gado pra longe, numa comitiva de sobrevivência, e que a saudade daquela morena vai doer fundo no peito. Por mais que essas preocupações cresçam em sua cabeça como sementeira depois da chuva, encontra paz naquele colo para sonhar seus sonhos. E a morena, do alto de sua meninice, correrá pra janela toda vez que ouvir um berrante pensando que seu amado está voltando ou entoando pra ela. A filha, que começou a engatinhar, não entende muito bem essas idas e vindas do pai, tampouco o choro da mãe quando ele não está. Vai sentir falta mesmo de ver as vaquinhas no pasto, pois gosta tanto de ficar vendo aqueles bichinhos brancos feito algodão no meio do capim verde. E toda vez que escuta um mugido abre um sorriso. Não é à toa que se sente ligada aqueles bichos, pois em razão de não pegar o peito foi alimentada desde sempre pelo leite das vacas. O pai ainda brincava de coloca-la em cima do lombo das mais mansas. Partir com aquela comitiva não seria fácil. Partiria não só o chão trincado como afetos que não se explicam. Mas enquanto o adeus não chegava, aproveita para suspirar naquela pele fresca como a brisa que entra pela janela, sacudindo as cortinas que revelavam uma lua circulada de vermelho, numa profecia ocular de estiagem.


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13/07/2010 - A copa de Paul

Passados os trinta e um dias da overdose futebolística, uma única certeza: quem ganhou a copa foi o polvo alemão. Paul, apelidado de Nostradamus, conseguiu prever os resultados decisivos da Fifa World Cup South Africa. Com nove cérebros e uma intuição digna do reino feminino, o molusco colocou a ciência em xeque e provou o fascínio da humanidade pela instituição do mistério. Ao contrário dos estádios sulafricanos, o olhar coletivo se voltou ao aquário marinho de Oberhausen, na Alemanha, casa do polvo de origem inglesa. ...
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03/12/2010 - A cor da saudade

Naquela mulher as linhas se alinhavam em destinos e desatinos como numa confecção particular. O maquinário moderno se mistura ao pedal da velha Singer que ficou num canto. Olhos de algodão. Palavras de tricoline. Braços de fita. Passos de gorgurão. Entre um ponto e um pesponto, as tesouras vão tentando cortar as cenas tristonhas e as fitas métricas vão medindo a saudade enquanto alfinetes se acumulam naquele coração que ora é de tecido ora é de carne.

Como é duro admitir que a vida fora do ateliê não é feita sob medida, tampouco cabe em moldes pré-desenhados. Os pais colocaram o pé na estrada deixando-a sem abraço sem boneca. Além do que um dos filhos habita outro mundo, a cachorra deixou de latir e o sogro já não vem. Os sonhos tiveram que ser reformados, remodelados, remendados, porém na sua camisa, de agora em diante, sempre hão de faltar alguns botões. Mas é preciso enfrentar essa vida que um dia é de seda, noutro de juta. ...
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30/09/2015 - A correnteza da vida

Quando vier a correnteza, segura firme nas margens daquilo que você acredita ou então feche os olhos e se deixe levar pela vontade do tempo em toda sua grandeza. Alguns chamam de destino esse menino levado que vem e quebra nossa expectativa, muda nossos planos da noite pro dia e nos livra ora da alegria ora da tristeza. Não planeje demais. Não veleje pra trás. Não engesse a sua vida, pois ela pode se quebrar. A beleza está no movimento das coisas. O segredo está em não ter medo do sentimento que sacode, que implode, que explode a todo tempo. A vida é o balanço, é a mudança, é a oscilação. Nada é como antes nem será agora como depois. Não se prenda. Há sempre uma fenda a lhe transpor para outro lugar. Tudo muda sutil ou bruscamente dentro e fora da gente a cada fração de segundo. Você é só um barco, um barco só, no oceano do mundo. E o mundo não teto nem fundo. Entrega-se. Não nega todo o amor que há no profundo do seu ser que pode vir à tona se o seu chão firme ceder. Não existe amor proibido existe apenas amor não vivido. Pode haver um tremor a qualquer momento misturando o que você guarda no sótão e no porão do seu coração. E se essa mistura acontecer você vai se dispor a viver ou vai se entregar a dor do não? ...
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13/10/2009 - A criatura amada e seus olhares

A criatura amada tem olhos de tsunami, capazes de lhe levar pelos ares, de lhe virar pelo avesso. Como são poderosos os olhares da mulher amada. Um poder metropolitano que lhe faz colônia em menos de três segundos. Fisicamente, eles incitam. Plasticamente, eles gritam. Poeticamente, eles palpitam. Como são tentadoras as pupilas da criatura amada. Urge o desejo de olhá-las até a morte. Creio que deva ser a mesma sensação dos soldados que optam por morrer com honra, em pleno campo de batalha.
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15/12/2012 - A descoberta do pepsamar

Em um mundo vitimado por tantas extravagâncias relacionadas aos comes e bebes um comprimidinho mastigável chamado pepsamar ganha contornos de tábua de salvação. Pode ser comprado com a mesma facilidade de um sanduíche, de um milkshake, de um chocolate. Além de barato, figura nas prateleiras de qualquer farmácia, sendo adquirido sem receita médica. Eficaz e de fácil acesso, uma combinação perfeita para ser utilizada como uma arma secreta.

A sensação do hidróxido de alumínio, o princípio ativo do pepsamar, agindo em nosso estômago no combate a acidez é a mesma da brisa soprando uma vela pelo mar afora em dia de sol azul. Sua ingestão traz momentos de paz e suavidade em um local marcado pelos horrores da azia, da gastrite, das úlceras. É tanta pressa para viver os efeitos do pepsamar que é difícil conseguir que ele dissolva inteiramente na boca antes de cair na tentação de mastigá-lo. ...
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