Daniel Campos

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Encontrados 33 textos. Exibindo página 3 de 4.

12/01/2011 - Grama recém-cortada

O barulho daquelas máquinas cortadoras de grama enerva os miolos. Um barulho rasgado, desafinado e, muitas vezes, engasgado. São notas longas, acordes estridentes. E o pior é que quase nunca surgem desacompanhadas. São duas, quatro, seis máquinas gritando ao mesmo tempo aparando os enormes gramados que se esparramam lá fora. Levando esses braços de corte, homens vestidos com macacões grossos, óculos de proteção, botas e quase nada de dinheiro no bolso. As lâminas vão decepando a grama, sem dó ou piedade, a ponto de tombá-la num jardim sem rosas ou violetas. ...
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12/07/2010 - Grilagem

Era só o que faltava: grilos falantes e cantantes invadiram minha casa. Na cozinha, na sala, no banheiro, no quarto... No sapato, na geladeira, no guarda-roupa. Há uma epidemia de grilos. Os orientais dizem que eles são sinônimos de boa-sorte. Por alguns minutos tudo é festa, mas confesso que ficar sem dormir por conta deles é, no mínimo, um atestado de azar. Mau-humor, indisposição, náuseas. Que cantoria de uma nota só é essa pelo amor de Deus?

De onde vieram os insetos ortópteros, da subordem ensifera, da damília dos grilídeos? Será que vieram das nuvens ou das ferrugens do chão. Mas aqui só tem plantação de sonhos e mais nada. Não sei se gostam de sonhar, mas agora que eles acharam direitinho a minha estrada só resta pedir ajuda às fadas, aos duendes, aos elfos... É um reco-reco nascendo sem parar desses bichos esverdeados. Minha esposa já arrumou as malas......
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05/06/2010 - Gaza, o território proibido

Ninguém pode chegar a Gaza. Ninguém pode sair de Gaza. Ninguém pode libertar Gaza. Gaza, o território proibido, segundo Israel. Será que o povo de Gaza consegue amar em meio a tanta dor. Será que o beijo beijado lá tem algum gosto diferente de pólvora e medo. Será que as grávidas dão à luz crianças ou prisioneiros. Gaza, tragédia humanitária. Gaza, ária que Mozart não ousou compor. Gaza, horror da tragédia anunciada. Gaza, bíblia revirada.

Quem se atreve a viver em Gaza, morre. Quem tenta socorrer Gaza, morre. Quem sonha Gaza, chora. Chora de pesadelo como criança no meio da noite escura procurando pelo colo da mãe. Gaza não é um país, mas uma faixa. Gaza não é uma civilização, mas um alvo. Gaza não é um lugar, mas um estado de guerra permanente. Gaza é o sonho palestino refém do próprio destino. ...
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12/11/2009 - Grande Deus

Que mundo nós teremos daqui a alguns anos? Eu sei que não é sua culpa, grande Deus, mas não há como eu não lhe preocupar. Os especialistas em diagnosticar o final dos tempos dizem que o planeta entrará em colapso em 2025, ano em que três bilhões de pessoas não terão acesso à água potável. Ao contrário de um dilúvio, uma desertificação consumirá o mundo que nos cerca.

Quantos sofrerão de sede, desidratação e outras doenças físicas, emocionais e sociais? Afinal, o cordão dos excluídos, que já conta com um número absurdo de integrantes, somar-se-á aos 200 milhões de refugiados climáticos que terão de correr em busca de água, de alimento, de vida. ...
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31/10/2009 - Gastronomia amorosa

Meu amor, ò vamos ceifar o trigo, vamos amassar o pão. Vamos assar, cozer, ferver nossos desejos em óleo bem quente. Vamos nos dividir como gomos de laranja e nos encontrar no fundo da boca. Vamos encontrar, misturar e acorrentar nossos nomes nas colheradas de uma sopa de letrinhas. Vamos cantar o nosso amor comendo guloseimas, pulando amarelinha. Vamos nos amar entre cartas de vinho e tarô. Vamos deixar a rotina insossa escorrer das grelhas e nos grelhar deitados nas telhas sob o sol ou à mercê das centelhas das estrelas. ...
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07/05/2008 - Gatos, gatos e mais gatos

Depois de ler a notícia de que 300 gatos mortos foram encontrados em três geladeiras quando a polícia revistou a casa de um homem no norte da Califórnia (EUA), lembrei-me da mulher de Tio Antero que também criava centenas de gatos. Tio Antero, na verdade, era tio do meu avô materno. Morreu há uns três anos, mas não foi em razão de seus inúmeros cigarros de palha. Tio Antero era uma figura curiosa, só andava de branco. Calça branca, camisa branca, chapéu branco. Mesmo no final dos 80 anos conservava um charme colonial....
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Gafanhotos

As palmas infestam o ambiente como uma epidemia de gafanhotos. As mãos se tornam asas verdes e se batem e se debatem. Não, ela não está no palco de um teatro, na frente de uma sala de aula, na apresentação de um balé. Está em sua casa, diante de um bolo com uma vela acesa.

Aquelas palmas, mais do que aplausos, eram a marcação de uma música que esbofeteava seu rosto. Os algarismos da vela indicavam vinte anos. Muitos diziam 15 e 18 como datas fundamentais, mas nenhuma data lhe doera mais do que os 20 de agora. Legalmente, era o último ano de sua dependência. Mas ela era dependente demais. Seus pais eram como se fossem suas drogas. Encontrava o êxtase nos olhos do pai e a cocaína no colo da mãe. Dependia deles para tudo....
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Garça que se esgarça

Na janela, espreguiça com ares de garça. Podia ter vontade de espreguiçar na cama, mas antes de consumir essa vontade, espreguiçava-se na janela. Uma varanda pequena, do 2º piso. Uma varanda minúscula. No máximo, dois metros quadrados que, na verdade, eram dois metros retangulares. Mal dava para caber seu corpo se ali deitasse. Era só para poder dizer que tinha varanda. Fez questão daquele apartamento, que nem era o melhor localizado e o com o melhor preço, mas era o que tinha a varanda perfeita para seus desejos. ...
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Gaveta sem fundo

Muitas vezes, ela abria a gaveta e me tirava dali. Como se ela fosse palavra e eu um papel em branco. E, pouco a pouco, ela se debruçava sobre mim. E ia me tingindo me manchando me marcando. De repente, ela se separava do meu corpo suado de tremores e pavores e me convidava para dançar.

Era como se ela convidasse a si própria para uma contradança. A cada vez, ela me impregnava mais com palavras suas. E dançava por alguns passos, mas antes da música acabar, ela se despedia. E eu entrava em uma espécie de gaveta sem fundo. Eu caia, caia, caia... Até que, tempos depois, acordava. E sempre despertava assustado com a impressão de acordar cada vez mais tarde. A cada novo despertar, meu sorriso era mais leve. E a cada novo descerrar, meus olhares guardavam mais surpresas.


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Ghostwriter - Apresentação

Bem vindos a um mundo fantasma

No mais íntimo dos mundos, todos sonham em ser outra pessoa. Só que poucos sabem a dimensão e as conseqüências deste desejo. Isso porque, em um dado momento, o sonho se torna realidade e essa outra pessoa lhe possui de uma forma, praticamente, sem volta. No início, esse relacionamento é de conquistas e prazeres. Com o passar do tempo, o personagem, criado por você mesmo, rouba sua vida e lhe deixa de coadjuvante em sua própria história.

Vivendo este universo de duplicidade, o irlandês Mark Egan, na verdade, é o britânico Colin Collins (CC), um famoso ghostwriter (escritor fantasma) à beira dos 50 anos e de uma grande crise existencial. O personagem CC criado por Mark ganhou fama e dinheiro, mas condenou o verdadeiro autor a um ostracismo perturbador. Depois de escrever centenas de livros, milhares de artigos e outros textos para personalidades dos quatro cantos do mundo, Mark duela com Colin para tentar trilhar um novo caminho. O que ocorre, a partir de então, é um duelo de fantasmas....
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