Daniel Campos

Ou exibir apenas títulos iniciados por:

A  B  C  D  E  F  G  H  I  J  K  L  M  N  O  P  Q  R  S  T  U  V  W  X  Y  Z  todos

Ordernar por: mais novos   título

Encontrados 207 textos. Exibindo página 5 de 21.

29/04/2015 - Divirta-se

Roda seu corpo no meu como se roda-gigante fosse num parque de diversões. Viaja em meus trilhos levando ao menos um desejo em cada um dos seus milhares de vagões. Gira como se fosse de santo e joga feito capoeira debaixo do pé de aroeira. Bota quebranto no próprio espelho tamanho seu encanto guardando-se debaixo do manto da mãe senhora. Fala de suas vindas, suas bem-vindas, suas boas-vindas, jamais do seu ir, do seu ir embora. Escorrega pelas nuvens tapando os ouvidos ao tempo que ruge em busca da mulher-menina-moça que cora suas maçãs como se as manhãs nuas as trouxessem pitadas de rouge.


Comentar Seja o primeiro a comentar

17/04/2015 - Dor de garganta

Minha garganta dói a dor do nascimento. Não tenho dor de garganta em razão de resfriado, amidalite, gripe. Minha garganta dolorosa, dorida, dolorida é pelo parto das palavras. Os amores ditos, benditos ou malditos, que esperam para nascer por meio de versos ou prosas se enroscam, cravando dentes e garras em minhas cordas vocais, as quais escalam como penitentes no purgatório em busca do céu. Do céu da minha boca, da minha língua, dos meus lábios. Querem nascer. Querem liberdade. Querem acontecer. Porém, precisam esperar sua vez. E nessa espera fazem doer porque também doem de silêncio. Ferem a garganta que para “eu te amos” são como cela de prisão ou convento. Querem se lançar, se jogar, se entregar ao vento, aos ouvidos, ao destino. Minha garganta dói grávida de sentimentos de amor sedentos para nascerem como palavras. Palavras...


Comentar Seja o primeiro a comentar

05/04/2015 - Desarranjo

Tem dia em que tudo aparentemente está no lugar de sempre, mas a sensação é de completo desarranjo, como se os demônios estivessem no corpo dos anjos. Uma estranheza nasce em cada canto, mesmo onde a beleza parecer reinar absoluta. O desencanto do desespero de ver tudo ali e ao mesmo tempo não ver nada do que queria ver. Você coloca um bolero de Ravel e o rádio toca tango de Gardel. Você fala, fala, fala, e até grita, mas nem você se escuta. Uma coisa maluca vai embaralhando seu rumo, deixando tudo e todos fora do prumo, quando na verdade é você que perdeu o equilíbrio caindo da corda do destino, rompendo a fronteira entre o real e o surreal, tendo um pé em cada mundo, enxergando o chão, mas tendo a certeza de que nada ao seu redor tem fundo. Você está rodeado e tão só porque tudo o que o rodeia já virou pó. O passado dá um nó e o futuro é o futuro e só, ainda não chegou e talvez nem chegará até você. Por quê? Porque o futuro é o futuro e só. Nada além de uma projeção, de um sonho, de uma ilusão como tudo o que o rodeia é fantasia, pois já aconteceu um dia e não mais acontecerá. Será que a teia existe ou é projetada pela aranha para que ela possa flutuar sem causar assombro? Será que tudo o que juntou lhe conforta, ou na verdade não mais importa, é só escombro? Não dê de ombros pra saudade, pois você nada mais é do que saudade. A realidade, na verdade, é antirealidade, você luta a todo instante para existir, como muito ao seu lado já não existe mais e você finge que está tudo certo, tudo em paz. Você luta de forma alucinante para não sumir, como já sumiram tantos, mas se convence de que isso não lhe causa espanto e se põe a seguir de encanto em encanto, com o coração vendado e de mãos dadas com o futuro-do-passado.


Comentar Seja o primeiro a comentar

17/03/2015 - Deixa-me

Deixa-me oficialmente porque coloquialmente já tinha se esvaído dos meus braços. Deixa-me fechando, trancando, lacrando as portas porque a dor das dores se chama esperança. Deixa-me à deriva num oceano de incertezas à mercê dos piratas cegos de amor. Deixa-me sem precisar apelar para as falsas acusações, pois saiba que não precisa de desculpa para seguir seu caminho. Deixa-me sem compreender o meu amor que foi tanto, mais que tanto, e mesmo tanto, insuficiente para matar a sua sede. Deixa-me atordoado, machucado, tombado sobre os escombros do que construí por nós. Deixa-me como quem deixa o que perde a validade. Deixa-me e, por favor, não ouse falar em saudade. Deixa-me porque todos os seus motivos são o bastante para tal deixa. Deixa-me sem culpas ou arrependimentos, não somos melhores que os ventos que acabam e começam e reacabam e recomeçam a todo instante. Deixa-me levando a certeza do meu amor sincero, verdadeiro, intenso... Deixa-me sabendo que será para sempre, todo o sempre, sempremente, inesquecível. Deixa-me atolado nessa areia movediça de lembranças na qual quanto mais mexo mais afundo. Deixa-me doendo o seu sofrimento, pois nunca suportei lhe ver sofrer, quanto mais lhe fazer... Deixa-me com as marcas dos meus erros. Deixa-me insuportavelmente carente. Deixa-me no que resta de nós. Deixa-me iludido com o que fui, com o que signifiquei, com o que simbolizei para você. Deixa-me de uma vez por mais que a vontade seja de deixar aos poucos. Deixa-me sem voz, sem cheiro, sem tato, sem som... Deixa-me como quem deixa um porco para o abate, sabendo que por mais que doa a dor alheia só fará doer-me mais. Deixa-me sangrando nossos sonhos incompletos. Deixa-me como uma mensagem dentro de uma garrafa, seja eu um pedido de socorro ou uma declaração de amor perdida no tempo. Deixa-me como numa música de Chico Buarque. Deixa-me como quem deixa um livro sem terminar de ler. Deixa-me com espaços vazios entre os primeiros parágrafos e o derradeiro ponto. Deixa-me como uma aliança sem par, como um romeu sem julieta, como um poeta sem musa. Deixa-me tentando me convencer de que é o melhor para nós dois. Deixa-me como quem deixa a vida para depois. Deixa-me para além de um blefe, numa cartada final, e se quiser maltratar de vez é só chamar de moleque, de cafajeste ou de pivete. Deixa-me e se for para não ter volta é só afirmar que sou igual a todos os homens que já passaram e ainda vão passar pela sua vida. Deixa-me e se for de verdade, basta se despedir uma só vez sem me chamar de amor. Deixa-me como fruto mordido, como um dia esquecido, como um mal resolvido, como um sentimento proibido. Deixa-me no desejo de ter vivido muito, muito, muito mais ao seu lado antes de ter sido decretado passado. Deixa-me porque mais dia menos dia o que pesa na bagagem deve ser deixado pela estrada. Deixa-me porque ninguém é obrigado a suportar um amor demais. Deixa-me pelos cantos, só não precisa dizer com todas as letras que acabou o encanto. Deixa-me, mas não rasgue de seu diário as páginas que dizem sobre mim, pelo menos não na minha frente. Deixa-me inesperadamente depois de tantos ensaios. Deixa-me consciente de que por uma época me chamou de vida e acreditou que eu fosse sua metade perdida. Deixa-me com sua pele ainda em minhas mãos, com seu cheiro grudado em minhas narinas e com meu destino ainda se casando com sua sina.


Comentar Seja o primeiro a comentar

01/03/2015 - Deus-sol

O sol se esparrama como um balde de tinta sobre tudo e todos. Ninguém escapa do sol. Por mais que existam telhas ou folhas de árvore sobre nossas cabeças a ação do sol é inegável. O sol desbota, o sol floresce, o sol seca, o sol murcha, o sol alimenta, o sol mata, o sol envelhece, o sol desidrata, o sol aquece, o sol viça... O sol é sem dúvida alguma o mais paradoxal dos astros, fazendo bem e mal ao mesmo instante. Enquanto uns morrem outros nascem e até renascem sob seus efeitos. Os raios solares permitem o equilíbrio entre vida e morte, como se a mesma mão que desse tirasse. Enquanto muitos buscam o rosto de deus se esquecem de olhar para o sol. Para além de altares, o sol, generoso e impiedoso, está lá, em todas as suas faces. E quem consegue olhar para o sol? Ninguém fita diretamente o astro-rei. É luminosidade, claridade, intensidade além do que nossos olhos mortais podem absorver. Deus-sol? Pode ser...


Comentar Seja o primeiro a comentar

20/01/2015 - De volta pro corpo

Com frio, mas muito frio a ponto de tremer, encolhi-me num canto debaixo de uma espécie de cobertura acinzentada esperando por ajuda. Não me lembrava da razão daquele frio, daquele cansaço, daquela falta de equilíbrio. Eu não estava bem, ficando à mercê de calafrios e enorme dificuldade de parar em pé. Parecia ter febre. A dor podia se assemelhar, mas era diferente do que qualquer dor física. Cheguei até aquele local de atendimento e esperei quieto a minha vez, pois havia muitos antes de mim. Quando uma moça de cabelos castanhos escuros ondulados com rosto de menina foi falar com a velha senhora eu me aproximei um pouco mais, pois em seguida seria a minha vez. A moça desandou a falar, a falar, a falar buscando conforto naquela consulta que parecia não ter mais fim. Tinha muito a contar enquanto a velha senhora só ouvia. Com aquele frio profundo, procurei pelo sol, indo para o campo esquerdo de onde se dava aquele atendimento. Foi então que a senhora me olhou e pediu para eu não ir embora. Disse então que queria apenas um pouco de sol e ela me pediu para sentar na ponta de um imenso banco de concreto, sem encosto, onde um pouco mais a direita ela conversava com aquela moça. Eu me sentei bem na ponta. Imediatamente à frente de onde estava havia um espaço vazio e mais à direita a cobertura onde esperavam a sua hora. Nas costas daquele banco, um buraco que eu não conseguia ver o fundo. Fiquei ali me alimentando daquela luz bendita que era diferente de qualquer sol já provado. Os raios solares eram mais amenos. Não demorou muito para que a menina se despedisse e tomasse seu caminho, embora não conseguisse ver o rumo tomado por aquelas pessoas pós-atendimento. Era como se desaparecessem. Foi então que chegou a minha hora. Eu me levantei, ainda bastante fraco, como que ferido pelas sombras, e fui ter com aquela senhora. Em sua frente, baixei a cabeça com as duas mãos unidas em meu peito, em sinal de reverência. Ela sorriu e tudo se fez luz. Ela vestia rosa, uma espécie de túnica rosa viva, tinha cabelos longos e negros, um rosto de várias idades. Ao seu lado direito, sobre o banco, duas muletas. Ela se revelou aos meus olhos como uma figura frágil, mas de tamanha força e vitalidade. Com palavras simples falou que faria uma coisa que ia me melhorar, como melhorou aquela outra moça que chegara primeiro. Colocou uma mão nas minhas costas e fui meio que sugado para trás. Ela me amparou com a outra mão também e a impressão era de que os dois cairiam de costas naquela espécie de precipício. Era como se ela tirasse algo de mim. Senti uma energia surpreendente e ao mesmo tempo em que me senti puxado me peguei adentrando numa mistura de tempo e espaço. Apaguei e acordei suado em minha cama ainda com a lembrança nítida daquela senhora que havia me feito voltar até meu corpo após restabelecer minhas forças.


Comentar Seja o primeiro a comentar

18/01/2015 - Diversa e adversa

Ela se olha no espelho como que buscando encontrar a mistura entre menina e mulher que dá o tom de seus conflitos internos. Naqueles olhos espelhados, o paraíso e o inferno, não há espaço para purgatório, pois ela está sempre entre dois extremos. Não tem como acalmá-la, domá-la, dominá-la, pois ao mesmo tempo em que é soberana ao atacar é tão frágil a ponto de desarmar os mais hábeis e tinhosos. No confronto do espelho, tenta juntar a princesa com a plebeia, a sonhadora e a operária, a guerreira e a bailarina. O fogo e o gelo constantemente se chocam produzindo as reações mais diversas e adversas. Ela se junta e se desmancha em frequência, numa opulência de cristal. Açúcar e sal na mesma lâmina que oscila entre o reflexo e o nexo. Assim é aquela menina que se espelha mulher no espelho que se faz menina. ...
continuar a ler


Comentar Seja o primeiro a comentar

15/01/2015 - De cada um

Seus pés reconhecem as pedras do caminho, sabem dentre tantos pedregulhos quais são seus quais dos seus vizinhos. Portanto, não faça uma jornada que não é sua. Tome para si exatamente o que é de si. O sorriso na cara do outro pode ser lágrima na sua. O destino é peça feita sob exata medida, numa exclusividade tal que não serve para mais de uma pessoa, com exceção das almas gêmeas, mas isso já é outro debate. O importante agora é que se conscientize de que a mesma estrada que pode levar fulano, ciclano ou beltrano ao paraíso pode lhe arrastar para o inferno. Não deseja a vida alheia, pois seus ombros não podem aguentar o peso sob a qual ela foi construída. Havemos de pagar pelas nossas dívidas sem nos ater às pendências e cobranças alheias. Temos de fazer o nosso e só. Não importa se as casas ao redor são maiores ou melhores, precisamos apenas cuidar para que a nossa casa esteja firme, pois o tempo pode parecer o mesmo, mas tem intensidades diferentes para cada um.


Comentar Seja o primeiro a comentar

03/01/2015 - Dias secos

Meu amor, que calor, quanto sol, falta nuvem, o azulão urge, o vento sumiu, tudo sopra quente, o sangue ferve, a lágrima evapora, a poeira ergue, a chuva foi embora, o rouxinol caiu, as pedras pipocam, os rios sem força já não desembocam no mar, as águas ficam pelo caminho, o suor toma de conta, queimaram os ninhos, a cachoeira já não ronca, o sono se perdeu, a fome morreu, o gado esqueleteia, a onda seca serpenteia, cadê a chuva, cadê a chuva, cadê a chuva por estas costas ruivas?


Comentar Seja o primeiro a comentar

30/11/2014 - De mim em você

Tem um canto pra mim no seu contracanto? Tem um pedaço de mim no seu traço? Tem um pouco de mim no seu tudo mais louco? Tem um estaleiro para mim no cais do seu corpo inteiro? Tem uma atração por mim no seu coração? Tem chuvas de mim caindo nas suas curvas? Tem uma pitada de mim na sua calada? Tem um que pra mim no seu balancê?


Comentar Seja o primeiro a comentar

Primeira   Anterior   3  4  5  6  7   Seguinte   Ultima