Daniel Campos

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01/06/2013 - Noite bêbada

A noite segue de salto alto pelos ladrilhos estrelados. A lua dança rumba numa boate de esquina. Cavalheiro como poucos, o meteorito passa discreto sem demonstrar perigo. Um mendigo, que toca sete instrumentos, passa horas na sarjeta sem conseguir um aplauso sequer. Carros se cruzam o tempo todo sem que haja troca de abraços ou telefones, exceto quando há uma colisão. Os ratos, nos guetos, cochicham conversas intermináveis. Há certa altura não se sabe se há mais luzes ou mais cigarros acesos.

Os gatos seguem esguios pelos muros com miados de arrepio. O repertório noturno é inesgotável, seja em matéria de histórias, ou de canções ou ainda de malandragens. São tantos anjos bebendo de bar em bar. Amizades, paixões e traições são celebradas com o devido foguetório. Os astros se envolvem em situações marotas. No fundo do palco, um homem sóbrio toca um piano bêbado. Há brindes renascentistas, clássicos, românticos, simbolistas, parnasianos, pós-modernistas e muitas taças e copos quebrados.

O garçom tem falas que oscilam entre o cansaço e a trivialidade. A bailarina tenta equilibrar seu corpanzil na linha dos olhares que a acompanham. Os artistas procuram ganhar o pão da noite como podem. A noiva sai pelas ruas escuras com confissões em punho. Há personagens cotidianos, famosos e anônimos, se esbarrando nas altas horas. Há propostas de todos os níveis de indiscrição e obscenidade sendo ditas na penumbra. Há um perfume de álcool pairando pelo ar e várias faces do que é e o que não é amar.


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