Daniel Campos

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16/12/2014 - Ela passou

Ela passou e nem me olhou. Ela passou fingindo não me conhecer. Ela passou e me ignorou. Ela passou com tanto a dizer não dizendo nada. Ela passou num tão grande sofrer. Ela passou e me fincou sua decepção. Ela passou e mesmo calada me disse um tamanho não. Ela passou sem me descobrir como se eu fosse um camaleão. Ela passou e me deixou tantas mágoas. Ela passou como um rio passa com suas águas – sempre em frente. Ela passou e nem me abraçou. Ela passou e nem me pediu um beijo. Ela passou e nem se lembrou de tudo o que fomos, o que somos. Ela passou e me revirou sem encostar um dedo em mim. Ela passou e esburacou meu jardim do sossego. Ela passou e nem se dignou a perguntar como estou. Ela passou como um vento que passa sem tomar conhecimento do que está na estrada. Ela passou deixando um perfume de angústia. Ela passou cega ao meu coração. Ela passou dando nós em minha garganta. Ela passou evocando minhas lágrimas num ritual sem explicação. Ela passou materializando a saudade que de tão concreta pesou sobre meu corpo. Ela passou mortal como bala de canhão. Ela passou dramática, enfática, bombástica. Ela passou roubando-me o ar. Ela passou pisando firme mesmo sem saber que caminho seguir. Ela passou e me confundiu. Ela passou e, querendo ou não, certeiramente me atingiu. Ela passou como um cometa que não se sabe quando vai passar novamente. Ela passou e nem sorriu. Ela passou honrando seu luto. Ela passou intensa até demais. Ela passou como os amores passam, deixando rastros de dor e vazio.


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