Daniel Campos

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16/07/2011 - Coração de vento

Ela não quer nada com nada da vida, apenas um pouco de ar. Um gole de ar, um trago de ar, uma gota de ar, um signo de ar, um beijo de ar, uma flor de ar. E tudo isso só porque lhe faltava o ar. O ar que dá sustentação à lua, o ar que abraça o vôo do pássaro, o ar dos balões de gás que andam nas mãos das crianças que gargalhavam se engasgando com ar. Quer sempre e para sempre todas as janelas abertas para que pudesse respirar plenamente pelo nariz, pela boca, pela pele...

Ela tem pânico de morrer sufocada, trancada numa masmorra sem ar. É claustrofóbica de nascença, tanto que veio à luz aos seis meses de gestação. Até hoje sofre com pesadelos se vendo num útero apertado ou na incubadora que lhe aprisionou por semanas numa UTI neonatal. Não usa roupas apertadas, cintos ou gargantilhas, tampouco se sente bem com os apertos financeiros no final do mês. Seus sapatos são sempre folgados fazendo-a caminhar de um jeito nada delicado.

Não pode trabalhar, pois o trabalho lhe tira o ar. Não pode namorar, pois o amor lhe rouba o ar. Não pode se entristecer, pois fica sem fôlego de tanto chorar. Não pode morrer, pois não quer ser enterrada num caixão com nada de ar. Não pode morar em cidade grande, pois a poluição lhe dá falta de ar. Não pode entrar no mar, porque não consegue respirar debaixo d’água como Iemanjá.

Há tempos colocou na cabeça que sofre de dificuldade de respiração. Asma, bronquite, amidalite, sinusite, adenóide,..., ela faz questão de ter e de combater tudo o que era doença que afeta o fluxo do ar. Faz tratamentos médicos, psicológicos, espirituais. Reza pros santos dos pulmões, pras fadas do ar. E não se decide se quer ser magra para mais bem respirar ou se quer engordar e engordar e engordar para ver se consegue guardar mais ar.

De tanto respirar profundo tem feridas no fundo dos pulmões. Tem dezenas de umidificadores espalhados pelo apartamento, um balão de oxigênio no meio da sala de jantar e uma infinidade de plantar para filtrar o ar. Não canta canções para as notas mais altas não esgotarem sua reserva de ar pulmonar. E, de tanto procurar, o médico de plantão, na última consulta, condenou-a ao sufoco de um sopro no coração.

Por detrás do sangue e das artérias, das válvulas e das batidas, das veias e dos ventrículos, das aurículas e das flechadas do amor, a mulher que vive se queixando de falta de ar guarda só para ela um coração de vento.


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