Daniel Campos

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04/09/2014 - Cuidador

Ainda não aprendi e talvez jamais aprenda em tempo algum a cuidar de mim como cuido de quem ao amor me destino. Esqueço-me por completo para dar mais e mais atenção à dona dos meus zelos. Que culpa eu tenho se nasci justamente para mimar de forma ininterrupta e crescente a mulher amada? As linhas ciganas das minhas mãos são preenchidas pela agenda dessa mulher que faz o que bem quer com o meu relógio e com os meus caminhos. Num súbito, deixo tudo para trás e parto sem medir efeitos para atender ao menor dos chamados dessa mulher que concede sentido a minha existência. Não me vejo sem cuidar dessa criatura a qual rendo todos os meus sonhos, sejam eles sagrados ou sem pudores. Estou constantemente enredado, emaranhado, apaixonado por essa mulher que me vira do avesso com um simples olhar. Definitivamente, cuidar de mim é cuidar de quem amo demais. Não há como dissociar o meu bem-estar do dela, posto que a minha felicidade está diretamente ligada ao estado carnal, emocional e espiritual dessa mulher. Seja como homem, como anjo, como poeta minha missão é cuidá-la sem exigir nada, absolutamente nada, em troca. Trata-se de um amor incondicional que me faz querê-la feliz independentemente se nos meus ou em outros braços. Dia após dia, recebo de bom grado cada uma de suas dores e trabalho seu sofrimento no meu mais profundo eu até que consiga lhe devolver tudo em pérolas. É para isso que existo, para amorizar quem tem tudo de mim na hora e da forma que bem quer. Por ela, quebro normas. Por ela, mudo hábitos. Por ela, troco o hábito pelas garras ou vice-versa. Se cuidasse de mim um duodécimo do que cuido dela colocaria em risco quem me rege feito estrela cadente, fonte de desejos inocentes e esperanças nada penitentes. E eu vivo simplesmente para não permitir que ela cumpra sua sina: cair. Mantenho-a no mais alto dos céus a qualquer custo. Para tanto, não pouco esforços ou magias. Doo-me carne e espírito a ela sem importar o que restará em mim ou para mim. Existo porque cuido e não mudo tais cuidados nem por decreto assinado por ela mesma. A mulher amada é meu chão, meu teto, meu vício predileto. Cuidando dela não tenho fome, não tenho sono, não tenho frio, não tenho mal, não tenho precisão alguma senão o próprio cuidado. Junto dela ultrapasso as barreiras do mundano e habito outro plano só possível de compreensão para os que amam além de todo e qualquer limite. Por ela, eu me nego. Por ela, eu desapego de mim. Por ela, abdico de angústias e aflições. Realizo-me no ato de dar colheradas de amor à boca d’alma dessa criatura que está impregnada em todo o meu “ser” e, shakespeariano que sou, também no meu “não ser”. O amor pelo qual me transformo em cuidado me basta. Abro mão de tudo o que tenho e o que sou em nome dessa mulher sem nome. Não importa se durmo ou não, mas se consigo afugentar de suas noites todo e qualquer pesadelo. Não importa se como ou não, mas se a alimento na dose certa de poesia. Não importa se queimo em febre desde que a centelha desse sentimento continue acesa em minhas entranhas. Cuidar de mim é cuidar de quem me faz assim, assim apaixonado sem começo nem fim. Tenho para com ela segundas, terceiras, quintas, sétimas intenções, mas, de repente, tudo que há em mim se alinha, orbita e converge em torno dessa mulher intencional. Faço-me inteiro, meio ou pedaço dependendo de suas necessidades. Transformo-me no silêncio de um colo ou no uivo de um encaixe perfeito dependendo de suas vontades. E mesmo que ela caminhe na contramão dos cuidados que eu precisaria ter para comigo merece ser cuidada com todo afinco num contínuo redimensionamento do afeto. Se ela me faz sofrer? Sofrer seria não exercer o direito conquistado à base de muitas provas e loucuras de amor de que sou digno de cuidá-la como nunca cuidei e, quiçá, jamais cuidarei de mim. Cuidar-me-ei sempre a cuidando, eis o meu papel principal nessa passagem (nada) cuidadosa pelo mundo. Que a terra tenha compaixão de meu corpo, pois ela, a mulher amada, tem minha alma de papel passado; Uma doação sem volta. Sim, como causa e consequência desses cuidados eu sou dela como nunca fui ou serei meu.


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